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CONTEÚDO ADULTO · TEMPORADA A DIVULGAR

Início / Manifesto

O MANIFESTO

Escute antes de concluir.

Um manifesto de liberdade, desejo e responsabilidade. Sem pedir respeitabilidade como condição de existência.

Uma peruca voando pode ser só uma peruca voando. E já seria uma boa razão para rir. Mas também pode ser o instante em que alguém percebe que não precisa interromper a própria dança porque uma parte da imagem saiu do lugar. Drag À La Carte começa nesse movimento: o corpo acontece antes de a explicação ficar pronta.

Esta casa não pede que você concorde com tudo. Não exige que reconheça a própria vida em cada música, que saiba o nome de todas as referências ou que ache graça em todas as piadas. Pede que a pressa de concluir não chegue antes da pessoa. Por trás do carão, do couro, da pose, da gíria ou do exagero, há alguém que não se resume à função que parece oferecer.

O universo da Lip Sync de Boteco tem raiz drag e queer. Sua linguagem abraça aquilo que tantas vezes foi tratado como excesso: o brega, a dublagem, o rebolado, a fofoca, a fantasia e o sexo. Não como um disfarce que precisa ser retirado para que a verdade finalmente apareça. A criação também pode ser uma maneira de existir. O glamour não precisa pedir desculpa à profundidade, e a festa não precisa virar aula para merecer acontecer.

Mas a liberdade perde o sentido quando é reservada apenas a quem concorda conosco. Conhecer a rejeição não nos impede de rejeitar. Podemos chamar o feminino de fraqueza, exigir masculinidade sem descanso, escolher quem merece ser visto, reduzir uma mulher ao apoio que oferece ou um corpo velho à utilidade de acolher. Podemos reivindicar o direito de desejar e transformar o desejo do outro em obrigação. É dessa contradição que a peça não desvia.

As seis personagens nas artes de concepção do projeto.

Não queremos trocar um tribunal por outro. Uma pessoa bonita não precisa ser vazia. Uma pessoa fora do padrão não precisa provar que tem mais fogo. Quem trabalha com sexo não deve a ninguém disponibilidade fora do combinado. Quem recebe prazer não ocupa um lugar inferior. Quem é versátil não é mais livre por definição. Quem prefere uma coisa só também pode viver sem ser corrigido. O problema não é a preferência; é o poder que alguém pretende exercer sobre a vida alheia em nome dela.

O direito de não se definir não autoriza apagar outra pessoa. O direito à privacidade não se confunde com humilhar alguém para proteger uma aparência. Ao mesmo tempo, ninguém tem obrigação de sair do armário para oferecer uma cena bonita. Uma experiência não entrega a terceiros o poder de decidir a identidade de quem a viveu. A descoberta precisa de espaço, não de uma plateia fiscalizando a resposta.

No desejo, perguntar não estraga a fantasia. A possibilidade de dizer não é parte do encontro. A Loba não existe para cumprir a imaginação dos homens que assistem. Daddy não nasce no posto de responsável por todos. O Boy pode desligar a câmera. Bandida pode continuar usando máscara e pedir ajuda. A roupa, a prática e a aparência não substituem a pergunta sobre o que aquela pessoa quer agora.

Também há noites que passam do limite. Fingir que não existem não protege ninguém; transformá-las em troféu tampouco. Tarja Preta visita esse lugar sem ensinar o risco nem abandonar quem o atravessou. A piada não ocupa a vaga do cuidado. A pessoa não perde sua história, sua dignidade ou seu direito de decidir porque precisou de ajuda. E um tratamento de saúde não vira motivo automático de vergonha.

Celebramos quem abriu caminhos, mas não queremos transformar a memória numa alfândega. Uma homenagem pode guardar nomes sem exigir uma carteirinha de quem chega depois. O palco, a internet, o cabaré, a pista e o boteco cabem no imaginário desta obra como formas de encontro, não como uma competição para escolher a única experiência legítima.

Por isso o espetáculo não termina afirmando que representou todo mundo. Dez músicas não dão conta de todos os corpos, idades, raças, deficiências, religiões, identidades, afetos e maneiras de desejar — ou de não desejar. Dizer isso não encerra a responsabilidade de escutar. Mantém a lista aberta e reconhece que ninguém se torna pequeno por não ter cabido numa canção.

Voltamos à mesa com o brilho, não apesar dele. Voltamos também com perguntas, despesas, vontade, cansaço e a possibilidade de corrigir um acordo. A liberdade desta casa não promete uma vida sem conflito. Pede que nenhuma pessoa seja obrigada a desaparecer para que o encontro continue.

A noite está servida. As pessoas, não.